Aulas, Arquitetura, em teoria.- Pós-modernidade, pós…


A pós-modernidade é um tema complexo e difícil de se aprofundar, autores como Fredric Jameson, David Harvey, Gilles Lipovetsky, entre outros nomes gastaram anos, décadas de pesquisa e livros publicados para isso. Há também vários nomes na Arquitetura e Urbanismo que se dedicaram a compreender e fazer críticas a esse momento.


Era uma vez, uma jornalista, casada com um arquiteto que se questionou sobre a crescente violência nas grandes cidades…Pera, Jane Jacobs é importante, mas não começou com ela…


Isto de pós-modernidade começou com uma série de questionamentos quanto a qualidade do espaço urbano e arquitetônico, desde os últimos CIAMs, na terceira fase do modernismo em diante.

A situação urbana do final dos anos 1950 e todo os anos 1960 era de segregação social, étnica, racial, e mesmo sexual. Não pensemos em distopias, isso é um exagero.


Mas muitos dos programas de habitação do pós-guerra guiados pela arquitetura moderna e seu racionalismo, [que foi a sua face mais popular], nos deu ambientes urbanos com violência, sem noção de pertencimento, sem compreensão de que a cidade seria formada pelos cidadãos não pelos edifícios, ruas e pontes.


Esta foi uma das muitas críticas elaboradas pelos…críticos, e estes eram formados por Jane Jacobs, Kevin Lynch, Robert Venturi, Aldo Rossi, Giulio Carlo Argan, Colin Rowe, entre muitos outros.


E com isso podemos separar a pós-modernidade em dois grupos básicos, o primeiro formado pelos nomes que já falamos, e o segundo por Peter Eisenman, Bernard Tschumi, Rem Koolhaas, Rafael Moneo, entre outros. Isto será retomado nas próximas semanas.


Alguns destes nomes todos serão detalhados nos próximos vídeos, este vídeo aqui, como já falado, tem o objetivo de apresentar e entender um pouco da proliferação de críticas ao modernismo na arquitetura e as teorias decorrentes das observações feitas por esses nomes.


A jornalista Jane Jacobs em seu aclamado livro, Morte e Vida das Grandes Cidades, dentre muitas análises nele contidas pode ser resumido em uma forte crítica ao planejamento urbano moderno e sua setorização funcional. As zonas de uso.


Para ela a vida real e boa nas cidades se dá pela multiplicidade de usos, pela constância no movimento de pessoas, não em horários específicos para sairem aos montes de um setor habitacional para um setor industrial, comercial ou de serviços.


Ela foi a primeira a nos chamar a atenção para a importância daquele que usa a e da cidade para as suas vidas, o usuário urbano [termo mais atual].


Podemos entender usar a cidade como sendo as pessoas que trafegam por ela, que usam seus espaços para realizar as tais funções sociais, habitar, trabalhar, estudar, lazer, etc. O usar da cidade envolve tirar partido da cidade, usar ela muitas vezes como o suporte de ações, um artista urbano usa dos muros da cidade, um esqueitista usa do mobiliário urbano para seu esporte, os exemplos são muitos.


Kevin Lynch fez um experimento pedindo que as pessoas desenhassem mapas da cidade em que moravam, ele pediu para as crianças desenharem como iam para a escola, pediu as mães os percursos que faziam durante o dia, pediu a todos que identificassem nos desenhos os pontos da cidade que mais lhes fossem importantes e o porquê eram.


Assim analisando todos os desenhos traçou uma série de conceitos para entender as cidades a partir do olhar de seus moradores. E claro suas posteriores análises fortemente embasadas na Gestalt, isso é bem legal, vamos voltar nisso um dia!


Da Itália Aldo Rossi trouxe a importância da cidade como espaço da historia e memória, afetiva mesmo. Ele valoriza o lugar, o espaço de vivência do cidadão acima dos edifícios em si, a experiência da cidade é mais importante.


Voltando aos Estados Unidos Robert Venturi publicou dois livros seminais, “Complexidade e Contradição em Arquitetura” e “Aprendendo com Las Vegas”.


Em resumo o que ele quis dizer foi abordar alguns conceitos vindos do estruturalismo filosófico, e de teorias da comunicação como semiótica para justificar a arquitetura como uma disciplina que pode ser lida e escrita como um texto.


[Ele publicou o segundo livro com a coautoria de seus sócios no escritório, Denise Scott Brown e Steven Izenour.]


Assim permitindo que se possa compor qualquer edifício contanto que o próprio tenha uma certa retórica, semântica e gramática. Ou seja, a colagem literal de elementos ecléticos é válida se justificada.


Da Universidade de Cornell, Colin Rowe e Fred Koetter lideraram um estudo de três anos comparando a fundo as cidades norte-americanas e romanas, Roma precisamente. O objetivo deles era compreender o desenvolvimento de uma cidade e sua longevidade. Este foi um estudo profundo e complexo que resultou em uma publicação, o livro “Collage City”.


Rowe e Koetter abordam entre muitos assuntos no livro, as utopias urbanas, e também a valorização da realidade existente, pensando em uma colagem, eles preferem o termo bricolagem, do existente com as utopias, os sonhos. O texto de Rowe é algo que gera uma série própria de vídeos.


Enfim, esta primeira parte da pós-modernidade que vai dos anos 1960 a meados da década de 1970 foi marcado por ideias e teorias ligadas a imagem que a cidade e os edifícios traziam para as pessoas.


Estas teorias eram ligadas ao estruturalismo na filosofia, a fenomenologia de Husserl, a semiótica de Pierce, e demais conceitos teóricos que levaram os … teóricos, críticos e também filósofos a lerem o mundo pelas entrelinhas do mesmo, a observar a retórica da vida, sua construção, os meios por como as coisas acontecem e funcionam.


Enfim… isso também vai longe, bem longe…


A modernidade foi a culminação de todo um ideário da razão humana podendo dobrar a tudo e a todos a sua vontade, a funcionalidade acima de tudo independente da qualidade de vida que as pessoas encontrariam. Temos até filmes criticando este pensamento, por exemplo “Meu Tio” de Jacques Taty. [muita gente prefere falar em francês o título, “mon oncle”]


A pós-modernidade por sua vez, buscou admitir que o mundo é múltiplo, que ele é formado por uma infinidade de possibilidades, também formais na arquitetura, o ponto aqui é que tendo isso em vista e que a cidade é formada pelos usuários dela, que no fundo o que querem é uma vida boa.


Geraram uma série de estudos e obras buscando gerar a tal boa vida. Entender isso foi um grande passo pra pós-modernidade.


Até mais,


Referências Bibliográficas:


GUARINO, Alexandre Dias. Anyone Corporation: Debates e Produção Teórica nas Conferênciaa “Any” (de 1991 a 2000).2020. Dissertação (Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo, Fundamentação e Crítica) - Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2020.

JACOBS, Jane. Morte e Vidas das Grandes Cidades. 3. ed. São Paulo/SP: Martins Fontes, 2011. 532p. ISBN-13 978-8578274214.

LYNCH, Kevin. A Imagem da Cidade. 1. ed. São Paulo/SP: Martins Fontes, 1997. 227p. ISBN 85-336-0631-1.

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MONTANER, Josep Maria. Depois do Movimento Moderno. Barcelona/ Espanha: Gustavo Gili, 2015.

NESBITT, Kate (org.). Uma Nova Agenda para a Arquitetura: Antologia teórica 1965-1995. 2. ed. São Paulo/SP: Cosac & Naify, 2008.

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ROWE, Colin; Koetter, Fred. Collage City. 1. ed. Cambridge/MA/EUA: MIT Press, 1984. . 192 p, ISBN-13 978-0262680424.

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