Aulas, Arquitetura, em teoria. - O que é Arquitetura? O que é o Arquiteto?


Nas próximas linhas seguirá o artigo base para o primeiro vídeo do nosso canal no Youtube, “Arquitetura, em teoria”.


Decorrente da pesquisa de mestrado que “descobriu” uma série de debates ocorridos mundo afora nos anos 1990, que por sinal foram pouco, muito pouco, mencionados no Brasil, mas importantíssimos para a compreensão da Arquitetura Contemporânea. O canal depois de introduzir a teoria da arquitetura abordará estes eventos.


As duas, três primeiras reflexões em vídeo vão falar do que é a Arquitetura, bom ao menos tentar… Arquitetura é um tema tão complexo que é fácil dizer: “tudo é arquitetura, mas nem tudo é” (GUARINO, A.D.).


O que pode parecer uma contradição, e é mesmo uma contradição proposital, que ao longo destas aulas se mostrarão menos complexas, aos poucos iremos entender melhor. Por isso deixemos isso em mente, mas no cantinho da mente, será retomado no futuro próximo.


Por muito tempo, desde Vitrúvio1 até hoje buscamos responder a pergunta do que seja a Arquitetura, e desde o século XX d.c. queremos também entender o que é o Urbanismo.


A princípio a arquitetura se refere ao construtor, àquele que planeja e executa as construções, acima do pedreiro, acima daquele que só se responsabilizava pela execução das edificações.


O termo grego Arché, significa muitas coisas, significa Mestre, chefe, origem, princípio, começo, etc. e Tekton, também do grego, que por sua vez deriva de Techné que significa também inúmeras coisas, é associada ao procriar, ao saber, ao fazer perante os conhecimentos da intuição, etc. ah! e também se refere ao artesão, ao marceneiro, ao pedreiro, etc.


Logo Aristoteles cita o Architekton como aquele que conhece a origem das coisas: “[…] um teórico que também é capaz de ensinar e manter sob suas ordens os trabalhadores incapazes de pensar de forma autónoma.[…]” (DERRIDA, in: NESBITT, 2008 - p.167)


Então neste caso a Arquitetura seria a arte, a profissão, o modo de ação daquele que antevê as coisas, daquele que conhece o que ainda não existe, e transmite este conhecimento aos que não o conhecem. Um mestre, um professor, um organizador…


Neste ponto de vista o Arquiteto pode ser o construtor como Vitrúvio, que detalhou toda sua realidade em seus Dez Livros sobre Arquitetura. E também todo aquele que produziu novos conhecimentos vindos do intelecto humano. Algo um tanto quanto abrangente.


Avançando no tempo… Foi na idade média que o termo Arquiteto passou a ser usado para designar a pessoa que sabe mais que o pedreiro, a pessoa que tem um trabalho intelectual na execução dos edifícios.


Vendo o pedreiro como um artesão, techné, e aquele que detém o conhecimento intelectual da construção como o arché+techné, que virou o arquiteto com o tempo.


No Renascimento, Leon Battista Alberti, publicou em 1485 [não ele, mas foi impresso neste ano, Gutenberg, etc.] seu tratado de Arquitetura, o primeiro que foi inicialmente classificado desta forma, o de Vitrúvio foi considerado um tratado muito tempo depois de sua morte. De re Ædificatoria, também a exemplo de Vitrúvio dividido em dez livros.


Foi com Alberti que as plantas, cortes e elevações das edificações começaram a tomar a forma padrão que usamos até hoje. Mesmo com toda possibilidade digital dos nossos dias. Tudo se baseia nestes três tipos de desenho.


Até aqui vimos um pouco da origem de Arquitetura e Arquiteto, está um pouco mais claro, mas ainda não exatamente claro


Enfim…temos chão pela frente e este tema sempre voltará a tona, afinal um dos temas mais recorrentes da teoria da arquitetura é a própria definição da disciplina em si.


A partir de agora temos que ver as noções de três coisas diferentes, porém interligadas. Teoria da Arquitetura, Crítica de Arquitetura e História da Arquitetura.


Todo estudo de história visa compreender o passado, traze-lo a luz do presente para assim compreender o que acontece na atualidade, em Arquitetura isto também se aplica, ao compreender o passado podemos dar passos para o futuro ao desenvolver o presente.



Depois de definir a História podemos então entrar na teoria e na crítica. Para muitos estes dois temas se entrelaçam e se misturam, mas na verdade podem ser bem definidos e até mesmo separados.


Ruth Verde Zein, crítica renomada da arquitetura no Brasil, diz que a crítica de arquitetura é a reflexão feita após a execução da arquitetura, usa de critérios teóricos tirados de outras disciplinas e também de toda teoria da arquitetura.


“A crítica da arquitetura vem sempre depois da arquitetura”. (ZEIN, 2018)


Já a teoria da arquitetura tende a ser mais propositiva. Ela visa apresentar ideias, conceitos, sonhos, devaneios, tenta com a ajuda de outras disciplinas alem da arquitetura, [tipo filosofia, sociologia, etc.] definir o que é a arquitetura em si. Esta teoria é uma reflexão feita pelo arkitekton de Aristoteles e Derrida, dando o significado do que ainda não existe, é algo que tende a vir antes da edificação. [Nem sempre, mas quase sempre].


Enfim, tudo isso nos deixa com diversas interpretações para o que seria a arquitetura e a pergunta: Será que estamos fazendo teoria?


Arquitetura então seria a profissão, a ação do organizador de ideias e conceitos, do construtor/artesão chefe que ordena os serviços, do organizador dos espaços e ações, do planejador e executor de possibilidades contidas antes somente na imaginação das pessoas.


Humm, então Arquitetura é transformar teorias em práticas…


Até mais,


1 - Marco Vitruvio Polião, construtor romano do século I a.c..


BIBLIOGRAFIA


GUARINO, Alexandre Dias. Anyone Corporation: Debates e Produção Teórica nas Conferênciaa “Any” (DE 1991 A 2000).2020. Dissertação (Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo, Fundamentação e Crítica) - Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2020.

MONTANER, Josep Maria. Arquitetura e Critica. [S. l.]: Gustavo Gili, 2016. 160 p. ISBN 8584520147.

MONTANER, Josep Maria. As formas do século XX. 1. ed. Barcelona/ Espanha: Gustavo Gili, 2002. 264 p. ISBN 8425218972.

MONTANER, Josep Maria. Depois do Movimento Moderno. Barcelona/ Espanha: Gustavo Gili, 2015.

NESBITT, Kate (org.). Uma Nova Agenda para a Arquitetura: Antologia teórica 1965-1995. 2. ed. São Paulo/SP: Cosac & Naify, 2008.

SYKES, A. Krista (org.). O Campo Ampliado da Arquitetura: Antologia Teórica 1993-2009. - Coleção Face Norte. 1. ed. São Paulo/SP: Cosac & Naify, 2013. 416 p. ISBN 8540502895.

ZEIN, Ruth Verde. Leituras Críticas. São Paulo: Romano Guerra Editora, 2018. 272 p. ISBN 879-85-88585-76-8.


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