Bom dia, na postagem de hoje vamos entender um pouco do que é a Gestalt. Gestalt é psicologia, psicologia da forma, e forma também é Arquitetura, em teoria.
Durante os finais da idade da razão, o iluminismo como conhecemos, a psicologia iniciada por nomes como Freud e Jung se fragmentou em diversas sub-categorias, e uma delas foi a Gestalt. No início do século XX, em torno do ano de 1910, os psicólogos alemães Max Wertheimer e Kurt Koffka, e o estoniano Wolfgang Köhler através de inúmeras pesquisas, de campo mesmo, procuraram compreender e explicar o porquê de algumas formas serem mais agradáveis ao olhar, o porquê da mente humana se enganar com as ilusões de óptica, entre muitas outras coisas. Eles quiseram apresentar uma explicação racional para todas estas questões, e assim definiram algumas leis, para alguns artigos em Arquitetura e Psicologia são seis leis, para outros são oito leis. Aqui vamos considerar oito leis pois especificam e explicam melhor a psicologia da boa forma.
E as leis são:
- Unidade: certos elementos e formas conseguem se destacar e serem um objeto único em si mesmo.
Por mais que muitos destes desenhos sejam formados por mais de um elemento geométrico, cada um deles é lido, é visto, é percebido com um único desenho.
- Segregação: em desenhos com muitos tipos de formas, algumas tendem a induzir o observador a separar as mesmas por meio de identificação das formas em relação ao todo, ou seja, ocorre uma segregação de formas dentro de um todo multiforme.
Neste desenho, devido ao contraste podemos enxergar diversas formas geométricas sobrepostas. Ou seja, um retângulo, um círculo, um triângulo e um quadrado/losango.
- Unificação: neste caso o observador é induzido a agrupar, unificar elementos levando em consideração a presença de harmonia, equilíbrio, ordem visual e coerência de linguagem ou estilo.
No agrupamento dos desenhos vemos um círculo, um quadro e um coração formado por quadradinhos.
- Fechamento: é quando a mente do observador é levada a completar formas, linhas desenhos que num primeiro olhar parecem ser partes de um mesmo todo.
E nossa mente nos fez ver um quadrado com círculos nos seus cantos, um círculo com um hexágono no meio e um retângulo.
- Continuidade: esta lei, alguns autores a juntam com a anterior, pois se refere também a um completar de forma, que dão a impressão visual de continuidade suave, sem barreiras ou interrupções, formando um trajeto suave único.
As próprias formas dos desenhos levam o olhar do observador a continuar a imagem, mesmo não havendo mais desenho. Um certo tipo de movimento é percebido, as setas ajudam e enxergar melhor.
- Proximidade: esta lei se dá quando em um conjunto de formas aquelas mais próximas tendem a formar grupos distintos em relação às outras formas do montante.
No desenho destes quadradinhos vemos que os próximos se agrupam em quatro grupos diferentes, com o realce dos quadrados e retângulo podemos destacar os grupos.
- Semelhança: aqui a mente do observador tende a unificar um conjunto de desenhos baseados na semelhança de suas formas ou cores, assim criando elementos unificados.
Neste desenho vemos uma curiosidade desta lei, os semelhantes nos fazem ver três colunas distintas, mas como se repetem vemos três outras colunas maiores.
- Pregnância da Forma: umas das mais importantes leis da Gestalt, a pregnância explica que a mente do observador tende a reconhecer as formas a partir de sua simplicidade. Quanto mais simples a forma for mais fácil serão assimiladas pelo observador.
Esta ultima lei também explica porque vemos formas reconhecíveis onde na verdade só existem o disforme, como ocorre com as nuvens. Nossa mente, nossos olhos buscam simplificar as imagens e assim garantir a assimilação delas.
Na arquitetura a Gestalt nos auxilia a compreender o espaço, nos ajudando a dar continuidade a corredores, skylines, fachadas. A entender a unidade de conjuntos edificados, a diferenciar diferentes blocos e partes do edifícios. Nos exemplos que seguem vemos uma correspondência das leis vistas nos planos, de uma planta e no tridimensional das fotografias dos edifícios prontos, ou em maquete eletrônica:
- Unidade - Edifícios com formas claras, simples, que se relacionam a geometria cartesiana tendem a formar uma unidade forte, que se destaca na visão das pessoas, como nos exemplos, a Igreja da Pampulha de Niemayer se destaca pela sua simplicidade. o MASP, obra de Lina Bo Bardi, se torna único por dois motivos, o primeiro devido aos pilares/vigas vermelhos de hoje em dia e o formato puro retangular do todo.
- Segregação - Nestas duas obras de Walter Gropius, Escola Bauhaus e Fábrica Facus,e percebemos que ocorrem a segregação de dois volumes bem claros devido a ausência de janelas. No caso as janelas formam seus conjuntos próprios marcando seus espaços no edifício. Também podemos ver a segregação das partes por mudanças de cores, materiais, usos, formas enfim.
- Unificação e Fechamento - No caso dos edifícios aqui apresentados iremos juntar estas duas leis, pois elas se complementam e tendem a parecer redundantes no caso dos prédios. Por exemplo nesta obra do escritório dinamarquês BIG, Entertainment District, vemos a continuidade percebida na cobertura do prédio, que com a curva tende a fazer o olho ignorar os espaços abertos e visualizar uma montanha. Em outra obra do mesmo escritório, Fuse Valley, também percebemos uma montanha. Estas leis, unificação e fechamento, nos explicam porque enxergamos unidades como os números feitos de filetes variados, e teto onde há pérgolas e espaços abertos corretamente limitados por vigas.
- Continuidade - a lei da continuidade também confere movimento aos edifícios, levando os nossos olhos a passeios pelos desenhos dos edifícios. Neste exemplo, uma proposta para 500 unidades habitacionais do escritório Architects of Invention, conta até com as luzes das “torres” levando nossos olhos para o céu. O segundo exemplo, um projeto de TFG, C3+Mi:Brás, de Alexandre Dias Guarino (2008), leva o olho do observador por cima da cobertura a continuar, e se misturar com o entorno da obra, gerando uma certa complementariedade entre o espaço existente e a obra proposta.
- Proximidade - a proximidade de elementos repetitivos tendem a levar a uma leitura da sua unidade, como nas escadas dos exemplos mostrados pode-se ver como um elemento só os degraus.
- Semelhança - a semelhança de elementos, seja devido às formas ou às cores, neste caso pensemos materiais e texturas também, geram conjuntos perceptivos no olhar do observador, como nesta obra, Silodam, do escritório holandês MVRDV, que conseguimos distinguir e separar os diferentes tipos de apartamentos adotados pelo escritório. No caso das pirâmides de vidro do Museu do Louvre em Paris, de I.M.Pei, temos os conjuntos feito pelos vidros, pelo sistema construtivo, e pelo contraste da forma com o edifício histórico do museu.
- Pregnância - agora é a parte principal da Gestalt, a qualificação do quanto uma imagem pode permanecer na memória. A pregnância quando considerada fraca, baixa ou mesmo ruim, se é que se pode usar este termo, nos leva a ver um prédio nuvem, também conhecido por Blur Building de Diller+Scofidio, e não entender muito bem logo de cara, pois toda a forma da obra parece borrada e imprecisa.
Já no segundo exemplo vemos um projeto de Mario Botta, Museu de Arte Moderna de São Francisco, com suas formas puras organizadas por claras sobreposições, e lógico, a obra conta com um cilindro chanfrado, detalhe muito comum em suas obras. Devido às formas geométricas claras, esta obra possui então uma pregnância maior, de mais fácil apreensão pelo observador.
Agora nesta obra de Frank Gehry, um arquiteto que é famoso por suas formas “escultóricas”, pela complexidade de suas estruturas, nem tão complexas assim, enfim. Estas formas do Hotel Marques de Riscal dificultam uma boa pregnância da obra pois ao abusar da lei da continuidade Frank Gehry faz os olhos do observador dançarem pelo edifício. Em algumas de suas obras vemos alguns sólidos de formas geométricas claras que “saltam” aos olhos devido ao contraste e melhoram a pregnância.
Nesta outra obra de Diller Scofidio e Renfro, o MIS do Rio de Janeiro, vemos uma pregnância moderada, observando o gabarito do edifício perante seus vizinhos vê-se uma equivalência em altura que nos faz ver uma inserção dentro de um cubo invisível, porém ao se olhar detalhadamente para o edifício a pregnância enfraquece, o que leva a um misto de percepções.
Por fim uma obra Moderna clássica de nossa História, o Conjunto Nacional na Avenida Paulista em São Paulo, uma obra de David Libeskind, que nos apresenta claramente o que é a tal da alta pregnância, da boa pregnância, da pregnância forte de formas geométricas puras euclidianas, cartesianas, enfim de fácil memorização pelos observadores.
Como mencionei na postagem anterior a Gestalt é fascinante e por incrível que pareça só foquei no que toca a Arquitetura, para os psicólogos existem muito mais aprofundamentos. Os exemplos foram suficientes? Faltou alguma coisa?
Deixem nos comentários suas ideias, sugestões e claro dúvidas.
Até mais...!z
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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MONTANER, Josep Maria. Depois do Movimento Moderno. Barcelona/ Espanha: Gustavo Gili, 2015.
NESBITT, Kate (org.). Uma Nova Agenda para a Arquitetura: Antologia teórica 1965-1995. 2. ed. São Paulo/SP: Cosac & Naify, 2008.
SYKES, A. Krista (org.). O Campo Ampliado da Arquitetura: Antologia Teórica 1993-2009. - Coleção Face Norte. 1. ed. São Paulo/SP: Cosac & Naify, 2013. 416 p. ISBN 85-405-0289-5.
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