Na postagem de hoje, após sérios problemas técnicos, agora resolvidos, vamos detalhar um pouco da pós-modernidade, e de início falaremos da "Morte e Vida das Grandes Cidades". Sim elas morrem e renascem constantemente no mundo todo.
A jornalista Jane Jacobs em seu aclamado livro fala de muitas coisas, em resumo é uma crítica ao planejamento urbano moderno e sua setorização funcional. Para ela a vida real e boa nas cidades se dão pela multiplicidade de usos, pela constância no movimento de pessoas, não em horários específicos para saírem aos montes de um setor habitacional para um setor industrial, comercial ou de serviços. Caçando congestionamento…
A vida contida em certos bairros, em cidades de certos tamanhos onde a vizinhança se conhece, onde todos os moradores e trabalhadores nas ruas comerciais estão, de certa forma, de olho no que está acontecendo. Este tipo de vizinhança um tanto bucólica, é tratado por Jacobs como um modelo ideal da vida urbana.
Já me chegaram relatos sobre o bairro da Freguesia do Ó em São Paulo em que vizinhos se ajudam e trocam conversas por cima dos muros de seus quintais. Este tipo de vida quotidiana é exaltado por Jacobs, retirando o fato de que a Freguesia do Ó acaba por ser um bairro majoritariamente habitacional.
Na modernidade do urbanismo racionalista se via a cidade a partir da prancheta do planejador, a partir dos dogmas e crenças deste técnico em eficiência urbana. Em nenhum momento eles foram ver de fato como a cidade funcionava de verdade. Este é um ponto crucial na crítica de Jane Jacobs, a falta da visita In Loco.
Os modernistas de outrora preferiam simplificar as coisas, a cidade deveria funcionar como uma máquina perfeitamente azeitada, sem contratempos nem solavancos. Logo parar para observar o que se parece com o caos, o famigerado e temido caos, não fazia parte de seus corolários.
Jacobs reconhece a complexidade da vida urbana, de seus atores, de seus conflitos, enfim da ordem natural das coisas:
“É preciso ter compreensão para ver os complexos sistemas de ordem funcional como ordem, e não como caos. As folhas que caem das árvores no outono, a parte interna de um motor de um avião, as entranhas de um coelho dissecado, a redação de um jornal – tudo isso parece caótico se não for compreendido. Assim que são compreendidos como sistemas ordenados, eles realmente são vistos de modo diferente.” (JACOBS, Apud. TAVOLARI, 2009, p.419, grifo original)
E esta mesma ordem contém dentro dela a capacidade de regeneração das cidades. Algo um tanto orgânico, que levou muitos a pensar em um urbanismo organicista, assunto para o futuro…
Quando se fala em Jane Jacobs se fala em alguns de seus conceitos-chave, como os “Olhos da Cidade” que nada mais são do que uma vizinhança atenta ao seu entorno, cuidando uns dos outros, protegendo uns aos outros, independente de conflitos com a “fofoqueira da rua”. Uma vizinhança alerta é mais segura contra certos níveis de criminalidade.
Jacobs foi um de muitos autores da pós-modernidade a evocar a identidade do bairro, o sentimento de pertencimento dos moradores que devido ao convívio diário teriam o “compromisso” de protegerem a si e a zelarem pelos espaços urbanos que compartilham, o sentido de comunidade.
Se não há comunidade temos por exemplo a pixação e muitas vezes o grafite que podem ser vistos como resultado da expressão de pessoas e grupos que os fazem para serem vistos e ouvidos. Muitas vezes estes grupos fazem as suas marcas como sinal de uma necessidade de considerarem aquele pedaço da cidade como parte de suas identidades.
O urbanismo modernista que era puramente funcionalista não estava preocupado com esta relação de pertença a uma cidade por parte dos moradores de uma região, o que resultou na proliferação de reações “violentas”, a pixação é só um exemplo da variedade de reações em busca do pertencimento a um território, da busca de territorialidade.
Devemos levar em consideração que Jacobs publicou seus estudos e críticas a partir da década de 1960, quando ainda não havia explodido as proliferações de grupos e gangues nos Estados Unidos.
Como muitos autores depois dela, vieram a demonstrar, e corroborar seus conceitos. A melhor forma de conter possíveis reações “violentas” é o caminho da democracia. E esta democracia é conhecer e ouvir as demandas dos bairros, das pessoas que habitam lá e juntos encontrarem as políticas públicas que podem valorizar o lugar.
A participação da comunidade vem decorrente das publicações e atuações de Jacobs, que em sua vida foi ativista, sempre participando e exigindo dos governos municipais de Nova Iorque sua demanda de participação da comunidade na produção das políticas públicas destinadas aos bairros e comunidades.
Esta busca pela participação democrática dos cidadãos nos levou ao que ainda fazemos nos dias de hoje, quase 50, 60 anos depois, a Arquitetura participativa. Que no caso é quando os Arquitetos ouvem a comunidade, e junto delas projetam as soluções para suas demandas e necessidades. Existem inúmeros exemplos ao redor do mundo.
No Brasil temos a Unidade Básica de Saúde de Vale Dourado, em Natal, no Rio Grande do Norte, um projeto associado a UFRN.
Refletir sobre as cidades e propor meios e modos de melhorar a vida é Arquitetura, mas Arquitetura não é somente isso.
Até mais, !z
Referências Bibliográficas
GUARINO, Alexandre Dias. Anyone Corporation: Debates e Produção Teórica nas Conferênciaa “Any” (DE 1991 A 2000).2020. Dissertação (Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo, Fundamentação e Crítica) - Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2020.
JACOBS, Jane. Morte e Vidas de Grandes Cidades. Tradução Carlos S. Mendes Rosa. São Paulo-SP, Martins Fontes, 2014. ISBN 978-85-7827-421-4.
MONTANER, Josep Maria. Arquitetura e Critica. [S. l.]: Gustavo Gili, 2016. 160 p. ISBN 8584520147.
MONTANER, Josep Maria. As Formas do Século XX. 1. ed. Barcelona/ Espanha: Gustavo Gili, 2002. 264 p. ISBN 8425218972.
MONTANER, Josep Maria. Depois do Movimento Moderno. Barcelona/ Espanha: Gustavo Gili, 2015.
NESBITT, Kate (org.). Uma Nova Agenda para a Arquitetura: Antologia teórica 1965-1995. 2. ed. São Paulo/SP: Cosac & Naify, 2008.
SYKES, A. Krista (org.). O Campo Ampliado da Arquitetura: Antologia Teórica 1993-2009. - Coleção Face Norte. 1. ed. São Paulo/SP: Cosac & Naify, 2013. 416 p. ISBN 8540502895.
TAVOLARI, Bianca. Jane Jacobs: contradições e tensões. Rev. Bras. estud. Urbanos Reg. São Paulo, v21, n.1, p.13-25, jan-abr 2019. Disponível em: https://doi.org/10.22296/2317-1529.2019v21n1p13. Acesso em: 29 jan. 2021.







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