Aulas, Arquitetura, em teoria. - Imago Urbis…ou gestaltsstadt…






Bom dia, no video acima falamos da Imagem da Cidade, Kevin Lynch e sua visão urbana, e isso também é Arquitetura, em teoria.

Kevin Lynch liderou um grupo de pesquisa em 1960 focando em entender a paisagem urbana a fim de melhor modificá-la de acordo com as necessidades da cidade. Por necessidade das cidades vamos entender intenções dos administradores e vontades das comunidades.


Antes de tudo precisamos compreender os conceitos-chave, a definição de Legibilidade e Imaginabilidade. A Legibilidade se refere a clareza da leitura da cidade, ou seja toda a cidade para Lynch e companhia pode ser analisada como um texto, cada parte pode ser considerada um elemento gramatical de uma possível análise sintática. Já a Imaginabilidade se refere a capacidade de reter imagens urbanas na sua mente, certas imagens podem ser mais fortes de se guardar e por meio da psicologia da Gestalt foi possível definir ao longo da pesquisa o como e o porque de certos lugares da cidade terem mais significado que outros, quais espaços evocam lembranças e mesmo a memória coletiva. Este conceito é fundamental para entender Lynch.


Para isso eles escolheram três cidades norte-americanas como estudo de caso: Boston, Jersey City e Los Angeles. Três cidade com realidades bem distintas, a primeira é onde estavam locados a Universidade e os pesquisadores, a cidade-sede e base de toda a pesquisa; a segunda uma cidade que não tem uma grande importância no país, mas tampouco é desimportante, localizada no que podemos chamar de zona metropolitana de Nova Iorque; já a terceira cidade Los Angeles é uma cidade bem diferentes das outras duas, com influências da colonização espanhola e posterior estadounidense. Uma cidade com uma quadricula padrão espanhol que se perdeu ao longo do tempo. Estas cidades foram analisadas pela equipe de Lynch e depois adentradas pelos pesquisadores. Os cidadãos foram questionados como se movimentavam e viviam nas suas cidades, foram perguntados sobre os locais mais importantes e significativos, sempre acompanhado de justificativas, é claro. Estes mesmos habitantes ou transeuntes de cidades próximas foram pedidos para que desenhassem mapas, com os entornos de onde moravam, trabalhavam, estudavam, enfim onde viviam a cidade.


De posse de todos estes dados Lynch e equipe então traçaram um conjunto de elementos urbanos importantes e estes eram: as Vias, os Limites, os Bairros, os Pontos Nodais e os Marcos. Da compreensão e definição destes elementos eles criaram um conjunto de critérios de análise da forma urbana. Estes elementos serão explicados logo mais. Com isso ao estabelecer os critérios formais básicos da cidade se pode então analisar a qualidade da forma urbana. Na quarta parte da pesquisa esta análise procurou compreender os “comos”, “porquês”, “para quês”, de cada parte da cidade. Compreender as relações entre as vias e os bairros, entre os limites e os marcos, a função dos pontos nodais estruturando um tecido. Enfim a qualidade que isso proporciona a cidade. Por fim o material publicado trás uma “conclusão” da pesquisa, que por ora deixaremos com o título do capítulo “Uma nova Escala para as cidades”.


Os elementos urbanos desta gramatica de Lynch podem ser compreendidos de algumas formas, mas uma visão direta, até mesmo simplificada servirá ao nosso propósito:


  • As Vias são o local do fluxo, o local por onde as pessoas se movem na cidade, seja a pé, seja pelos meios de transporte individual ou coletivo. Por ser o ambiente do movimento urbano as vias acabam se tornando predominantes no imaginário popular da cidade, Lynch encontrou na sua pesquisa que toda descrição da imagem feita pelos entrevistados por sua equipe ocorriam envoltas nas vias.
  • Já os Limites são compostos por todo elemento urbano que causa descontinuidade, que gerem um certo tipo de barreira, algumas vezes impenetráveis. As vezes esses limites são somente padrões visuais, mudanças nas fachadas, nos usos dos imóveis, algo que demarque uma mudança. No caso dos limites do tipo barreira podemos citar as ferrovias que cortam e cruzam as cidades dividindo as mesmas em duas. No caso do limite suave podemos citar certas avenidas onde predominam usos diferentes a depender do lado ou altura.
  • Naturalmente uma região dividida possui em cada lado uma porção de terra que Lynch chamou de Bairro, no inglês foi usado distrito. O bairro para Lynch não significa exatamente o mesmo que vemos em muitas de nossas cidades, onde dois ou mais bairros diferentes continuam a se parecer muito. O bairro neste caso é toda uma região que se assemelha por causa do uso, do tipo de construção, do estado de conservação enfim de algo comum a toda uma grande área que por isso serve de referência, como certas regiões conhecidas de São Paulo, o Pari é conhecido por ser um bairro com forte comércio de roupas, ou isso é o Brás?
  • Sempre que duas vias importantes se encontram, duas regiões se colidem, ocorre um Ponto Nodal, um nó que de certa forma marca a cidade e a imaginação de seus habitantes. Os pontos nodais podem ser considerados os centros dos bairros, claro se este apresenta um caráter de convergência de uso ou fluxo das pessoas. Enfim a função destes nós segundo Lynch é marcar pontos dos bairros e das cidades todas que servem como concentradores de conexões, fluxos viários.
  • Por fim os Marcos, um nome já bem comum a uma boa parte das pessoas, para Lynch o marco é exatamente o que o nome diz, um espaço, um local, um edifício, praça, árvore ou escultura que traz uma referência externa, visual, um elemento que marque firmemente algo na cidade, seja uma identidade de bairro, seja um trevo na estrada demarcando onde começa a cidade. Para Lynch o marco pode nem estar fisicamente na cidade, pode ser uma ilha próxima da orla de uma cidade litorânea, o importante é captar o imaginário de seus habitantes, reforçar o sentimento de identidade, e identificação da cidade, do bairro, da via.


Aposto que ouvindo isso e vendo os exemplos, muitos lugares vieram a mente, e para cada pessoa mesmo em uma mesma cidade pode ser algo totalmente diferente de pessoa para pessoa. Para diminuir a subjetividade disso Lynch definiu os marcos e pontos nodais baseados na constante menção por parte dos entrevistados, pois daí se configura um elemento coletivo, não individual. Logo para encontrar boa parte destes elementos em uma cidade precisa-se entrevistar seus habitantes. “Contato social gente, abaixo a tecnocracia”.


Lynch não se focou só na identificação dos elementos, como ja mencionado, mas também na relação entre eles. A relação entre vias e pontos nodais, a relação entre marcos e limites, entre bairros e todos os demais elementos, afinal em uma região de um bairro temos vias, marcos regionais, pontos nodais para estruturar a região e claro os limites para demarcar a região do bairro. Toda a preocupação de Lynch e equipe de pesquisa era com relação a imagem da cidade, por sinal o nome do livro resultante. Esta imagem urbana precisa ser de fácil apreensão pelos moradores e mesmo pelos que somente passam pela cidade. 


A estruturação desta imagem imaginável precisa ter boa pregnância, ou seja, precisa fixar-se na memória das pessoas para daí aumentar a qualidade com que as pessoas aproveitam a vida urbana. E esta preocupação levou Lynch a definir alguns conceitos:


  • A Singularidade se refere a clareza da figura-plano de fundo, a nitidez dos limites, que podem ser mais subjetivos e de difícil percepção. Esta clareza pode resultar em contrastes com relação ao entorno, o que torna o elemento mais identificável.
  • A Simplicidade da forma é descrito por Lynch como o uso e predomínio na memória das pessoas das formas simples e geométricas, como áreas urbanas em quadriculas ortogonais, formas retangulares de prédios bem demarcadas, cúpulas com seus formatos clássicos, enfim isto confere fácil compreensão e memorização do meio urbano.
  • A Continuidade dos limites, das superfícies, das linhas dos traçados urbanos, da repetição rítmica das árvores e postes nas vias e praças, as formas aplicadas nos cruzamentos, esquinas, o uso de um padrão de desenho urbano são o que proveem a sensação de unidade dos espaços públicos.
  • O conceito do Predomínio se refere ao destaque de certas partes sobre o todo observado, este predomínio de certas formas acabam por estimular as pessoas a ignorarem certos detalhes que podem ser importantes para a melhor compreensão do todo. 
  • A Clareza de junção entre os elementos urbanos, suas formas e significados tendem a ser estratégicos para se estruturar a imagem urbana, ou seja onde há o contato de dois ou mais elementos há as linhas que marcam as divisas dos mesmos, e estas linha podem ser claras ou não.
  • O conceito da Diferenciação direcional segundo Lynch se trata do uso de elementos diretos, como assimetrias das vias, quadras, edifícios, ou mesmo indiretos como a posição do sol no horizonte. Através disso que as pessoas podem se localizar nas cidades, para qual sentido estão seguindo, norte-sul, leste-oeste. 
  • O conceito de Alcance Visual envolve a qualidade do quanto se pode enxergar da cidade, se é possível ver através dos edifícios com suas peles de vidro, não espelhados claro, por meio dos pilotis, liberando a linha de visão na altura do pedestre. A visão de mais de um único bloco edificado, pela sobreposição de volumes, com alturas diferentes, materiais diferentes, num escalonamento claro. Neste ponto Lynch fala de concavidade, como de uma curva que expõe uma perspectiva aberta na sua linha de visão, este conceito do alcance visual diz muito a respeito de perspectiva, de permeabilidade visual, de composição variada que possa facilitar a apreensão da cidade como um todo. 
  • Este conceito aqui da Consciência de Movimento é totalmente ligado às entrevistas, não é algo fácil de expressar por meio do desenho. O movimento sempre está ligado à experiência urbana de cada indivíduo e o desenho urbano deve prover à cidade de possibilidades de movimento, de localização, de identificação de onde se está na cidade, esta qualidade é deveras importante para uma boa leitura urbana.
  • As Séries Temporais são algo percebido ao longo do tempo, como um ritmo constante de marcos, de elementos de destaque, claro, de mesmo tipo como certas fachadas ou pontos de ônibus. Este ritmo segundo Lynch é mais ligado a melodia do que ao ritmo proporcionado pela percussão numa música. Isso é algo complexo que Lynch ainda não tinha completamente compreendido e definido até então.
  • Por fim, existem em toda cidade uma rede de Nomes e Significados, desde o uso de nomes históricos para denominar ruas e praças a apelidos que as pessoas dão aos espaços públicos. Isto possibilita melhores relações de identidade com a cidade, ou seja aumentam a percepção de pertença de seus cidadãos, como por exemplo um monumento  ser mais conhecido pelo seu apelido pode dizer que para a cidade ele se tornou historicamente desnecessário, do ponto de vista da memória urbana não representa mais muita coisa, só um “deixa que eu empurro”.


Os conceitos de Kevin Lynch são fortemente embasados pela psicologia da forma trazida a tona pela Gestalt como a continuidade aplicada às vias ajudam a visualizar outro conceito da gestalt, a unidade do conjunto. Ou seja ao se falar de desenho e forma geralmente a Arquitetura cai nos conceitos traçados pela Gestalt décadas antes. Afinal eles traçaram com sua psicologia da boa forma ferramentas de desenho que auxiliam a todos a estruturarem as formas aplicadas na folha branca, no caso de Lynch sua folha branca eram três cidades dos Estados Unidos.


A Gestalt é fascinante e será retomada em futuro vídeo e postagem. E Kevin Lynch não se limita somente a este material. Existem muitos outros conceitos cunhados por ele e pelos seus que usamos para auxiliar a compreensão da Arquitetura e que, quem sabe podem ser retomados em futuros vídeos e postagens. 


A Imagem da cidade é Arquitetura, mas Arquitetura não é somente imagem.


Até mais,

Referências Bibliográficas.

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