Hoje falaremos da Complexidade e Contradição em Arquitetura, e também um pouco de Aprendendo com Las Vegas, ou seja o tema hoje é Robert Venturi, Denise Scott-Brown e Steven Izenour. O famoso trio pós-moderno, e pós-modernidade é Arquitetura, em teoria.
Como em todo material escrito da pós-modernidade, o que temos a princípio, é uma crítica à Arquitetura e Urbanismo modernos, ou modernistas se preferir. Nesta crítica, muitas vezes ácida, Venturi aponta o caráter fortemente reducionista tanto da arquitetura quanto do urbanismo modernos, para ele esta extrema simplificação dos problemas, escolhendo o que resolver e qual seria a resposta mais simples e direta. Desta forma ficam de fora muitas questões vitais, que os modernistas consideraram desnecessárias, um pouco do que vimos em Jane Jacobs.
Venturi, ao questionar os dogmas propôs substituir o “ou isso ou aquilo” por “isso e aquilo”, uma possibilidade includente, onde a arquitetura pode resolver mais de uma questão por vez, usar mais de um conceito, mesclar partidos, aceitar até mesmo o kitsch.
Neste primeiro artigo, que se tornou um livro depois Robert Venturi usou de fontes variadas, de outras disciplinas alem da arquitetura, usou da Gestalt, da Semiótica, teorias linguísticas e da comunicação, psicologias evolucionistas e de muita História. Diferente de Le Corbusier e os seus contemporâneos, Venturi não buscou uma superação do Zeistgeist, o espírito do tempo que marca as gerações ao longo da história, ele aceita o tempo e a história, ela pode muito bem ser fonte de aprendizado e inspiração.
Sobre isso Kate Nesbitt diz o seguinte: "Assim, o surgimento da teoria de Venturi, que estimula uma apropriação eclética da história, centrada nas imagens, pode ser comparado à abertura de uma caixa de Pandora de estilos.” (Nesbitt, 2008, p.91) e com isso os maiores críticos à pós-modernidade poderiam dizer que “se abriu a porta do inferno”, sei não…maldade isso.
Venturi propôs em seu livro “Complexidade e Contradição em Arquitetura” a possibilidade da arquitetura complexa, não no sentido formal, com expressões mirabolantes, nem dizendo que na “simplicidade" aparente do espaço miesiano haveria uma complexidade inerente. Para o autor esta forma de mencionar a complexidade não é verdadeiras e caem no mesmo que o pitoresco, algo muitas vezes vazio de conteúdo, servindo somente como uma imagem, não uma arquitetura. Em uma frase de Robert Venturi, ele apresenta a complexidade como sendo “[…] no mínimo o resultado do programa mais do que da vontade do autor. O edifício complexo cria um todo vibrante a despeito de sua variedade.” (Venturi in:Nesbitt, 2008, p.95)
Enfim, a arquitetura segundo Venturi precisa aceitar as complexidades de seu entorno, do programa destinado ao uso, das pessoas que usariam o edifício projetado, por fim o arquiteto deveria trabalhar com o desconhecido, não nega-lo como antes se fazia. Esta teoria é longa, mas podemos resumir um pouco como aqui está.
Alguns anos depois deste livro Robert Venturi publicou outro livro que também se tornou importante para a Arquitetura e Urbanismo como um todo, “Aprendendo com Las Vegas”, obra publicada com as co-autorias de Denise Scott-Brown e Steven Izenour.
Comecemos aqui com este trecho retirado de um artigo publicado no livro de Kate Nesbitt:
“Para um arquiteto, aprender com a paisagem existente é uma maneira de ser revolucionário. Não do modo óbvio, que é derrubar Paris e começar tudo de novo, como sugeriu Le Corbusier na década de 1920, mas de outro modo, mais tolerante, isto é, questionando a maneira como vemos as coisas.” (Venturi, Scott-Brown in:Nesbitt, 2008, p.340)
A proposta de Venturi e sua esposa, Denise Scott-Brown com "Aprendendo com Las Vegas", não é nem nunca foi de simplesmente fazer uma apologia do urbanismo da cidade estado-unidense. Suas ideias são de propor sim algo revolucionário, mas uma revolução silenciosa da qual as preocupações seriam mais vernaculares, se podemos dizer assim.
Este casal de arquitetos e seu sócio propõe que todo o existente é válido, até mesmo o famoso Kitsch de Las Vegas, o que sempre gerou críticas de Frampton entre outros. Em Las Vegas eles identificam algumas curiosidades na Strip, uma estrada urbana que liga o aeroporto ao centro da cidade. Todos os edifícios, cassinos em sua maioria, possuem um vasto estacionamento no recuo frontal, algo até que ostentado com um certo orgulho. Nas partes próximas às vias de acesso à Strip tem-se postos de gasolina, uma forma de garantir o abastecimento do cliente entre um cassino e outro, as áreas como apontado por Venturi e Cia são grandes, bem grandes, logo ninguém faz os caminhos a pé.
A respeito destas grandes áreas, os autores apontam uma rede de Supermercados, ou Hipermercados, que apresenta algumas características. Suas lojas são dotadas de estacionamentos no que seria o recuo frontal, com suas típicas demarcações no piso para as vagas e os caminhos dos carros, bolsões com desenhos claros e intuitivos, sempre sinalizados em direção à loja. Acredite eles consideraram isto a evolução do grande espaço aberto, em comparação aos jardins de Versalhes.
Enfim, dentro dos mercados tem-se uma organização do espaço semelhante às ruas comerciais de cidades medievais europeias, ou as feiras no mundo árabe. Lógico, temos de transpor as escalas e a forma das relações de troca de acordo com cada cultura.
Outras curiosidades que foram apontadas são as fachadas dos prédios da Strip levemente inclinadas no sentido do fluxo de carros, algo como um convite ao acesso dos visitantes, sem falar de outdoors e letreiros luminosos cada vez maiores e mesmo animados para assim garantir o interesse das pessoas. Venturi expõe que as faces são chamativas e os fundos tranquilos, tanto em desenho quanto na propaganda.
Las Vegas é a cidade comunicação, um lugar em que se fizermos um uso de uma lei do tipo “cidade-limpa” matamos o ambiente urbano existente. De acordo com Venturi e Scott-Brown esta cidade do deserto norte-americano somente existe em sua plenitude porque se comunica constantemente.
Outro fato importante da realidade de Las Vegas era mesmo a Strip, a estrada em si. Ela tem seu papel estruturador do ambiente claramente demarcado, com as faixas, canteiros, sinalização, a via determina os acessos aos cassinos e demais usos que se ergueram ao longo da mesma. Algo comum quando olhamos para inúmeras cidades, inclusive no Brasil.
Para Venturi, Scott-Brown e Izenour, Las Vegas pode ser lida como um texto claro, um texto rico de metáforas espaciais, ícones e símbolos, hierarquias urbanas, etc. Entender a cidade do pecado, como chamam por lá, é complexo e contraditório, é um par de livros e artigos que valem a leitura, mesmo que agora sejam livros raros.
Tal como os autores, em sua fala:
“Las Vegas é aqui analisada apenas como um fenômeno de comunicação arquitetônica; seus valores não são questionados. A publicidade comercial, os interesses do jogo e os instintos competitivos são outro problema.” (Venturi, Scott-Brown in:Nesbitt, 2008, p.353)
Comunicação é Arquitetura, mas Arquitetura não é somente comunicação.
Referências Bibliográficas
GUARINO, Alexandre Dias. Anyone Corporation: Debates e Produção Teórica nas Conferênciaa “Any” (DE 1991 A 2000).2020. Dissertação (Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo, Fundamentação e Crítica) - Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2020.
MONTANER, Josep Maria. Arquitetura e Critica. [S. l.]: Gustavo Gili, 2016. 160 p. ISBN 85-845-2014-7.
MONTANER, Josep Maria. As Formas do Século XX. 1. ed. Barcelona/Espanha: Gustavo Gili, 2002. 264 p. ISBN 8425218972.
MONTANER, Josep Maria. Depois do Movimento Moderno. Barcelona/Espanha: Gustavo Gili, 2015.
NESBITT, Kate (org.). Uma Nova Agenda para a Arquitetura: Antologia teórica 1965-1995. 2. ed. São Paulo/SP: Cosac & Naify, 2008.
VENTURI, Robert. Complexidade e contradição em Arquitetura. In: NESBITT, Kate (org.). Uma Nova Agenda para a Arquitetura: Antologia teórica 1965-1995. 2. ed. São Paulo/SP: Cosac & Naify, 2008.
Venturi, Robert; Scott Brown, Denise; Izenour, Steven. In: NESBITT, Kate (org.). Uma Nova Agenda para a Arquitetura: Antologia teórica 1965-1995. 2. ed. São Paulo/SP: Cosac & Naify, 2008.



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